quinta-feira, fevereiro 26

..minhas.

(..) Está fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma

liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto. O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.

É tão difícil falar, é tão difícil dizer as coisas que não podem ser ditas, é tão silencioso. Como traduzir o profundo silêncio do encontro entre duas almas? É dificílimo contar: nós estávamos nos olhando fixamente, e assim ficamos por uns instantes. Éramos um só ser. Esses momentos são o meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita.

Eu chamo isso de: estado agudo de felicidade.

Estou terrivelmente lúcida e parece que estou atingindo um plano mais alto de humanidade.


(.Clarice Lispector.)

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