(..)É irônico que eu tenha procurado você por encontrar definições e, depois de quase três anos, tenha chegado à conclusão de que não há definição alguma que nos traga paz. A falta de definição, por si só, define a vida. Tudo é transitório, Lopes, nossas manias, nossos pensamentos, nossos amores, nossos pontos de vista. Sabemos quem somos e o que sentimos, mas não sabemos até quando. Estamos em trânsito, e a definição só virá quando não estivermos mais aqui para entende-la.
Passei boa parte da minha vida tentando evitar variações de idéias para não me afastar muito de mim mesma. A segurança, eu achava, estava em armazenar todas as informações sobre si, e assim poder antever nossas próprias reações diante do novo, como se fosse um velho conhecido. O novo não existe. O dia de amanhã é uma incógnita. Podemos ter uma consulta marcada no otorrino para tratar nossa sinusite, podemos ter certeza que iremos comprar os ovos que faltam na despensa, podemos saber até que vai chover, pois os meteorologistas fizeram progressos. Ainda assim, sempre havera a hispotese de sermos surpreendidos por nós mesmos.
Lopes, cheguei aqui dizendo que eu era masculina no pensar e feminina no sentir, que dentro de mim havia uma tribo nomade, que eu me sentia multipovoada e isso me confundia. Lopes, ainda assento essa turma em mim e isso não me confunde mais. Continuo preferindo verde, mesmo diante de uma cartela variada de cores, e continuo preferindo o mar, mesmo sabendo que posso aprender a gostar do campo, desde que recolham os repteis. Não preciso morrer com as minhas escolhas, meu caixão ha de ser do tamanho do meu corpo, não haverá lugar para minha teimosia ou devaneios.
Lopes, que liberdade boa essa de se desresponsabilizar pelo próprio personagem. As pessoas ainda podem confiar em mim, aceitar meus cheques e minha palavra, sabem que tenho um bom retrospecto e não vou lhes faltar. A liberdade de que falo é a de poder ser o que ainda não tentamos. Tentei ser honesta, boa mãe e não cruzar o sinal vermelho, optei por essas decisões porque acho mais fácil viver assim, causa menos dano a mim e aos outros. Mas ainda não tentei muitas coisas. Não tentei aprender a tocar um instrumento, não tentei escrever um poema, não tentei fazer minha declaração de renda sozinha...Lopes, o que é viver intensamente?
Vidas não são entregues em kits personalizado, compostos por dois sonhos, meia dúzia de projetos e uma única maluquice: essa costuma ser a munição que cada pessoa recebe ao nascer, para que a ordem seja mantida na sociedade. Eu aceito a parte que me toca, mas ninguém me impede de incrementar o dote. Não sou mais nenhuma garota e sei que não preciso passar o tempo que me sobra contabilizando erros e acertos. (..)
Passei boa parte da minha vida tentando evitar variações de idéias para não me afastar muito de mim mesma. A segurança, eu achava, estava em armazenar todas as informações sobre si, e assim poder antever nossas próprias reações diante do novo, como se fosse um velho conhecido. O novo não existe. O dia de amanhã é uma incógnita. Podemos ter uma consulta marcada no otorrino para tratar nossa sinusite, podemos ter certeza que iremos comprar os ovos que faltam na despensa, podemos saber até que vai chover, pois os meteorologistas fizeram progressos. Ainda assim, sempre havera a hispotese de sermos surpreendidos por nós mesmos.
Lopes, cheguei aqui dizendo que eu era masculina no pensar e feminina no sentir, que dentro de mim havia uma tribo nomade, que eu me sentia multipovoada e isso me confundia. Lopes, ainda assento essa turma em mim e isso não me confunde mais. Continuo preferindo verde, mesmo diante de uma cartela variada de cores, e continuo preferindo o mar, mesmo sabendo que posso aprender a gostar do campo, desde que recolham os repteis. Não preciso morrer com as minhas escolhas, meu caixão ha de ser do tamanho do meu corpo, não haverá lugar para minha teimosia ou devaneios.
Lopes, que liberdade boa essa de se desresponsabilizar pelo próprio personagem. As pessoas ainda podem confiar em mim, aceitar meus cheques e minha palavra, sabem que tenho um bom retrospecto e não vou lhes faltar. A liberdade de que falo é a de poder ser o que ainda não tentamos. Tentei ser honesta, boa mãe e não cruzar o sinal vermelho, optei por essas decisões porque acho mais fácil viver assim, causa menos dano a mim e aos outros. Mas ainda não tentei muitas coisas. Não tentei aprender a tocar um instrumento, não tentei escrever um poema, não tentei fazer minha declaração de renda sozinha...Lopes, o que é viver intensamente?
Vidas não são entregues em kits personalizado, compostos por dois sonhos, meia dúzia de projetos e uma única maluquice: essa costuma ser a munição que cada pessoa recebe ao nascer, para que a ordem seja mantida na sociedade. Eu aceito a parte que me toca, mas ninguém me impede de incrementar o dote. Não sou mais nenhuma garota e sei que não preciso passar o tempo que me sobra contabilizando erros e acertos. (..)
Lopes, você já quis me dar alta e eu recusei, achava que não estava pronta. Agora entendo que nunca estarei pronta, e que tudo que preciso é conviver bem com meu desalinho e inconstância, quem enfim aceito.
Bom trabalho, doutor.
Bom trabalho, doutor.
by Martha Medeiros, Divã.
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